Histórias

A História da Serra da Canastra

A Serra da Canastra é uma região única do Estado de Minas Gerais. Formada pelos maciços da Canastra e da Babilônia, ela abrange cerca de 8.000 km2, no extremo Sudoeste do Estado, entre o Triângulo Mineiro e o Sul de Minas Gerais. Nela encontram-se as nascentes do rio São Francisco (o rio da integração nacional, ou mineiramente chamado de Velho Chico), do rio Araguari (que perpassa o Triângulo Mineiro, desaguando no rio Grande, que por sua vez compõe a Bacia Transnacional do Rio Paraná) e inúmeros afluentes que compõem as bacias hidrográficas do rio São Francisco e rio Grande. Já a 15 quilômetros da sua nascente histórica, o rio São Francisco forma a cachoeira Casca D’anta, com 186 metros de altura, sendo a segunda cachoeira mais alta do Estado de Minas Gerais. Esta serra possui um formato retangular, que se assemelha a uma “canastra”, que nada mais é que um baú de couro cru e madeira, utilizado pelos tropeiros para o transporte de produtos e pertences nas viagens de maior duração, daí o nome Serra da Canastra.

Essa região originalmente era ocupada pelos índios Cataguazes, reconhecidos pela sua bravura e ferocidade, entretanto, já em 1675, os mesmos foram dizimados pelos Bandeirantes que realizavam viagens exploratórias na região. A partir da continuidade do desbravamento do interior brasileiro, já em meados do século XVIII, começam a serem estabelecidos povoados nas rotas utilizadas visando a logística e o abastecimento das missões, assim como a fixação de proprietários nas terras “recém-disponibilizadas”. A partir dessa fixação da população de origem portuguesa, na primeira metade do século XIX, dá-se início a produção de queijo como forma de “armazenar” o leite para consumo posterior, simultaneamente, devido às características geográficas da região (relevo extremamente difícil e abundância de água), são estabelecidos Quilombos nas cabeceiras do rio São Francisco. Neste mesmo período, são realizadas incursões comandadas por Diogo Bueno da Fonseca, que resultam no aniquilamento dos mesmos. Após estes episódios os povoados consolidam-se em distritos e cidades, que por um pequeno período do final século XIX até 1980, desenvolviam atividades de garimpo de diamantes, mas baseavam sua economia predominantemente na agropecuária.

História do Queijo Minas Artesanal Canastra

Com a ocupação da região por populações de origem portuguesa, as mesmas trouxeram seus hábitos e culturas. Além de manifestações culturais como a Folia de Reis e a Folia das Almas (que remontam a Portugal do século XVI), trouxeram a produção de queijo de leite cru, como forma de armazenagem das proteínas do leite por longos períodos de tempo. Há um debate sobre o antepassado desse queijo, se o queijo produzido na Serra da Estrela, ou o queijo produzido na ilha de Açores. Independente dessa questão, as técnicas de produção foram portuguesas e se adaptaram perfeitamente às características físico-geográficas da Serra da Canastra.

Ao longo do tempo esta produção consolidou-se como o ponto comum e crucial da Identidade cultural da população dos municípios da Serra da Canastra. Tradicionalmente, devido aos seus aspectos geográficos, a produção agropecuária era caracterizada pela criação extensiva e de subsistência. Raras eram as famílias que não possuíam algum tipo de envolvimento com a produção do QMA da Canastra, sendo relatado pelos moradores mais antigos que o queijo chegou a ser referência no pagamento dos trabalhadores rurais, com o dia de trabalho remunerado referenciado pelo valor em moeda local de um queijo. Essa prática perdurou até meados do século XX.

As particularidades ambientais da Serra da Canastra representaram fator decisivo para a adaptação da produção dos queijos de leite cru:

(…) registros históricos dão conta de que com a formação dos primeiros rebanhos utilizando a pastagem nativa de campo e as pastagens naturais existentes nas áreas desmatadas, surgiu a necessidade da produção do queijo artesanal. O produto era consumido pelas famílias e/ou comercializado junto aos tropeiros que passavam pela região e distribuíam estes produtos para diversas comarcas. O processamento era rudimentar, sendo o coalho natural, obtido da raspagem do estômago seco do tatu, porco ou do bezerro macho. Como fermento láctico, usava-se o “pingo”, ou seja, o soro que escorre do queijo no prazo de 12 a 24 horas, sendo que usualmente este “pingo” era trocado entre os produtores de queijo. A produção era guardada em malas de couro (bruacas ou buracas) e transportada em lombo de muares ou em carros de boi. Naquela época, devido às dificuldades de transporte, o queijo chegava a ser comercializado com 30 a 60 dias de maturação. (2009, p.07).

Estas dificuldades representaram obstáculos na consolidação da cadeia de escoamento da produção. Inicialmente o queijo era adquirido pelos tropeiros enquanto uma forma de mantimento/suprimento de longa duração para as viagens de travessia da Serra da Canastra com destino às regiões de São Paulo e Goiás, sendo o restante dos queijos não consumidos pelos tropeiros durante a viagem, comercializado junto com os demais produtos. Sendo reconhecido como um queijo saboroso nos locais em que era comercializado, os tropeiros começaram a estabelecer travessias exclusivamente para o comércio do queijo. Acrescente a isso a predominância da Agricultura Familiar e das pequenas propriedades na produção do QMA, é encontrado um perfil totalmente descentralizado e independente de produção.

Referências:

EMPRESA DE ASSISTÊNCIA TÉCNICA E EXTENSÃO RURAL DO ESTADO DE MINAS GERAIS.Demonstração da Notoriedade Histórica e Cultural da Canastra para Queijo Minas Artesanal. Minas Gerais: 2009.